O possível título do Hearts expõe a crise silenciosa do futebol escocês. Na atual temporada, o Hearts vive um momento histórico. O clube lidera o Campeonato Escocês, algo inesperado para quem terminou apenas na 7ª posição na temporada 2024/25, em uma liga que conta com apenas 12 clubes. A campanha surpreendente alimenta o sonho de um título que pode quebrar um tabu de mais de 39 anos.
| Vitória do Hearts sobre o Celtic por 3 a 1 |
A última vez que nem Celtic nem Rangers venceram o Campeonato Escocês foi na temporada 1984/85, quando o Aberdeen sagrou-se campeão. Caso o Hearts confirme o título, encerrará um jejum histórico e entrará para a história do futebol escocês.
A disparidade financeira na liga
Mesmo liderando o campeonato, o Hearts está muito distante dos dois gigantes do país em termos financeiros:
Celtic: €136,2 milhões
Rangers: €109,95 milhões
Hearts: €22,6 milhões
O Hearts possui o terceiro elenco mais valioso da liga, mas seus números mostram um abismo enorme quando comparados a Celtic e Rangers. Em condições normais, essa diferença deveria se refletir em domínio absoluto dos dois grandes — algo que não vem acontecendo.
O problema vai além do título nacional
À primeira vista, a ascensão do Hearts pode parecer positiva, sinalizando maior competitividade interna. No entanto, o cenário revela algo mais preocupante: o declínio recente do futebol escocês como um todo, especialmente no contexto europeu.
Celtic e Rangers, que historicamente carregam o país nas competições continentais, vêm acumulando fracassos consecutivos na Europa. Esse baixo desempenho foi determinante para a perda da vaga direta na fase de grupos da Champions League, privilégio que a Escócia possuía até pouco tempo atrás.
Queda no ranking da UEFA
O futebol escocês atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história recente no cenário europeu. Após um breve ressurgimento, especialmente na temporada 2022/23, quando a Escócia alcançou a 9ª posição no ranking de coeficientes da UEFA, havia a expectativa de consolidação entre as principais ligas do continente.
Naquele momento, o campeão nacional garantia vaga direta na fase de grupos da Champions League, um feito expressivo para uma liga de investimento limitado.
No entanto, o cenário se deteriorou rapidamente. Na temporada 2025/26, a Escócia caiu para a 18ª posição, ficando atrás de países como Chipre e Suíça. Pela primeira vez em anos, nenhum clube escocês disputou a fase de grupos da Champions League.
As eliminações precoces de Celtic (campeão) e Rangers (vice-campeão) nos playoffs foram consideradas vexatórias por torcedores e analistas. Ambas as equipes demonstraram fragilidade técnica, baixa competitividade e falta de planejamento, mesmo contra adversários teoricamente acessíveis.
O paralelo com o futebol austríaco
A situação escocesa lembra bastante o que ocorreu recentemente com a Áustria. O país também perdeu sua vaga direta na Champions League após cair no ranking da UEFA devido ao baixo desempenho de seus clubes nas competições europeias ao longo dos últimos cinco anos.
O declínio do RB Salzburg, responsável pelas melhores campanhas internacionais do país, foi decisivo. Nacionalmente, houve a ascensão do Sturm Graz, campeão das duas últimas temporadas, mas o clube não conseguiu repetir o desempenho europeu que o Salzburg apresentava.
O país saiu da 8ª posição em 2021/22 para a 17ª colocação em 2025/26, evidenciando um declínio acentuado.
Um futuro preocupante para a Escócia
Essa situação pode se tornar ainda mais grave na temporada 2026/27, caso o Hearts conquiste o título e não consiga atingir o mínimo esperado de um campeão escocês nas competições europeias — algo que nem Celtic e Rangers conseguiram recentemente.
Se nada mudar, o futebol escocês corre sério risco de se distanciar ainda mais do topo europeu. Um país que, há poucos anos, sonhava em se manter entre as 10 principais ligas da Europa, hoje luta para não cair fora do top 20 do ranking da UEFA.
O possível título do Hearts, embora histórico e simbólico, pode acabar sendo mais um sintoma do declínio estrutural do futebol escocês, e não exatamente um sinal de evolução.
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